domingo, abril 08, 2018

MISSÃO E ASSASSINATO


                                         



"Lutei contra a dominação branca e lutei contra a dominação negra. Porque eu promovi o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todas as pessoas possam viver em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal que espero viver mas, se necessário for, é um ideal para o qual estou preparado para morrer".

(Conclusão do discurso de três horas de Mandela durante seu julgamento, em 1964, em que foi acusado de sabotagem e traição).





                    Na primeira semana de abril de 2018 se completou 50 anos do assassinato do pastor protestante e ativista político Martin Luther King Jr., assassinado por ser um dos mais importantes líderes do movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA.

                    No Brasil, na mesma época, completa quase um mês do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, que chocou o país e repercutiu em todo mundo. Conhecida por suas lutas sociais em prol dos direitos humanos e de minorias, teve sua vida ceifada por tiros que atingiram também o âmago da jovem democracia pátria.

                    Os assassinatos de Martin Luther King Jr. e Marielle Franco nos trazem muitas questões. Destaco duas para serem analisadas pela ótima espírita:

a)    Podemos nascer com alguma missão pré-definida, que inclui sua morte pela causa que defende?

b)    Alguém nasce com a missão de matar outra pessoa?

                    Primeiramente é importante entender que o que chamamos de missão deve ser abordada dentro do que os Espíritos chamam de programação reencarnatória. Esta é um conjunto de condições, circunstâncias, peculiaridades e compromissos que o Espírito assume, direta ou indiretamente, antes de voltar para matéria, mas não se confunde com destino, em face do seu caráter mutável e probalístico, eis que afetado pelo uso do livre arbítrio.

                    Sabemos que muitos Espíritos participam, em medidas diferentes, de algumas escolhas de sua reencarnação. O grau de participação nas escolhas depende do mérito e, portanto, do grau evolutivo do Espírito. Quanto mais evoluído, mais pode participar nas decisões sobre seu processo de retorno à matéria.

                    Portanto, é possível que Espíritos evoluídos participem, direta ou indiretamente, de escolhas de suas provas e expiações, o que inclui o processo da morte. Não são incomuns, por exemplo, registros de lideranças indicando o pressentimento de risco à sua vida, mesmo quando não há ameaça clara a seu respeito.

                    Mas esse não pode ser tomado como um critério absoluto.

                    Algumas questões importantes envolvem o tema.

                    No tocante à primeira pergunta, a resposta é sim.

                    Para entender, convém falar um pouco de alguns aspectos relevantes.

                    Como mamíferos que somos, a espécie homo sapiens sofre forte influência das emoções. Fartas pesquisas científicas comprovam que elas estão diretamente associadas as nossas crenças, nossa percepção do mundo, nossa memória, nossos laços afetivos e nossas decisões. Logo, as emoções são fatores que influenciam significativamente não apenas indivíduos como também coletividades.

                    Por outro lado, líderes geralmente têm uma habilidade comum: a empatia social cativante.

                    Quando um líder é assassinado, a sua morte gera, instantaneamente, um irradiante impacto emocional que afeta grande número de pessoas, às vezes toda uma sociedade e até mesmo vários países. O fato, cria, pois, uma atmosfera psicoemocional e cognitiva favorável para que seu exemplo e ideias sejam conhecidas e debatidas.

                    Mesmo em um tempo de hostilidades, a morte cria naturalmente um clima de reflexão. Não quer dizer que tudo o que o líder lutava torna-se perfeito. Quer dizer que as lutas, ideias e exemplos entram em pauta, são debatidas e, por vezes, o clamor popular move as estruturas de poder e transformações sociais ocorrem.

                    Podemos ver esse fenômeno claramente em mortes como a de Martin Luther King Jr., Mahatma Gandhi, Chico Mendes e agora de Marielle Franco. Foi o que ocorreu, por exemplo, com Martin Luther King Jr e os direitos civis dos negros e com Chico Mendes em relação à proteção ambiental da Amazônia.

                    Por isso, é possível que a morte no contexto de luta de seu ideal faça parte do programa reencarnatório de determinado Espírito que voltou à carne com uma missão ligada a alguma causa nobre, como a garantia de igualdade aos negros ou a luta contra grupos de extermínios em comunidades pobres.

                    Olhada isoladamente e somente pela perspectiva da matéria aquela morte pode não fazer sentido, mas de um ponto de vista mais largo e espiritual ela pode servir como um resgate de dívida passada – agora quitada em favor de uma causa nobre – e pode ser uma peça central em um mosaico complexo que faz parte de um amplo processo de mudança.

                    Ou seja, é possível que a morte de determinado indivíduo faça parte de um plano evolutivo maior, que é impulsionado pelo clamor social daquela morte. Isso não quer dizer que todo Espírito que luta por uma causa nobre será assassinado e tampouco que todo assassinato de lideranças esteja relacionado com sua luta por uma causa nobre. Líderes também são assaltados e mortos como qualquer cidadão comum.

                    Tampouco isso diminui a infâmia e a gravidade do ato de matar, que deve ser investigado, punido e, no final das contas, atesta a ainda baixa evolução da humanidade.

                    Também, não é possível afirmar que este é o caso de Martin Luther King Jr. ou de Marielle Franco. É uma hipótese, eis que muitas de suas lutas envolviam temas que estão relacionados com o progresso da humanidade, como o respeito aos negros e a minorias marginalizadas. Mas, repise-se, é apenas uma hipótese.

                    A primeira questão nos leva necessariamente à segunda: alguém nasce com a missão de matar, por exemplo, um líder?

                    A resposta é um peremptório não.

                    O tema deve ser estudado sob o prisma do livre arbítrio, que é objeto das questões 851 a 867 do Livro dos Espíritos. Sobre a hipótese de alguém reencarnar para matar convém transcrever a questão 861 do Livro dos Espíritos. Vejamos:



861. Ao escolher a sua existência, o Espírito daquele que comete um assassínio sabia que viria a ser assassino?



“Não. Escolhendo uma vida de lutas, sabe que terá ensejo de matar um de seus semelhantes, mas não sabe se o fará, visto que ao crime precederá quase sempre, de sua parte, a deliberação de praticá-lo. Ora, aquele que delibera sobre uma coisa é sempre livre de fazê-la, ou não. Se soubesse previamente que, como homem, teria que cometer um crime, o Espírito estaria a isso predestinado. Ficai, porém, sabendo que a ninguém há predestinado ao crime e que todo crime, como qualquer outro ato, resulta sempre da vontade e do livre-arbítrio.

“Demais, sempre confundis duas coisas muito distintas: os acontecimentos materiais e os atos da vida moral. A fatalidade, que por algumas vezes há, só existe com relação àqueles acontecimentos materiais, cuja causa reside fora de vós e que independem da vossa vontade. Quanto aos atos da vida moral esses emanam sempre do próprio homem que, por conseguinte, tem sempre a liberdade de escolher. No tocante, pois, a esses atos, nunca há fatalidade.”



                    Ou seja, ninguém nasce obrigado a matar.

                    Embora se reconheça a força do contexto e das circunstâncias, a escolha permanece e a pessoa pode resistir e não puxar o gatilho.

                    Ao puxar, assume a responsabilidade moral e espiritual de sua escolha.

                    Ela reflete a passagem bíblica (Lucas, 17) onde Jesus diz: ‘é impossível que não venham os escândalos, mas aí daquele homem por quem o escândalo vem”.

                    Por derradeiro, convém ampliar o prisma de análise e perceber estes fatos de um panorama mais amplo. Nesta toada, como perceber o fato sob a visão espírita?

                    Sabemos que estamos vivenciando a grande transição planetária. O tema é vasto, mas pode ser resumido nas convergências de múltiplas mudanças em níveis e dimensões diferentes da existência humana e da sociedade.

Modelos antigos estão ruindo. Mas não cairão sem barulho, luta e infelizmente violência.

                    As mortes de Martin Luther King Jr., de Marielle Franco e de tantos líderes fazem parte desse contexto de grandes mudanças. São pequenos pontos, que se tornam luz e inspiram transformações que às vezes só as próximas gerações vão se beneficiar.

                    Oxalá chegue o tempo onde as mudanças só ocorrerão pela via do amor. Por enquanto, infelizmente, a dor ainda tem muito a nos ensinar.

quarta-feira, maio 10, 2017

O TEMPO DE CADA COISA



"Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus:" 
(Eclesiastes, 3)


Para cada coisa há um tempo: é o tempo de Deus.
Não é necessariamente o nosso tempo. Pode ser, pode não ser.
Transitamos pelos dias e anos através do tempo. Por isso, nos agendamos, fazemos planos, estabelecemos metas, criamos expectativas.
E isso é ótimo.
Se temos um alvo, a fecha tem um caminho.
Mas o caminho da flecha até o alvo tem suas surpresas, seus imprevistos.
E isso também é ótimo.
Se tudo fosse previsível, controlável e inflexível a vida seria um modorrento tédio e uma experiência despida de desafios e aprendizagem.
Temos de fazer a nossa parte, entregarmos para cada dia e cada ano o melhor que pudermos. Levantar da cama, seguir nossa agenda, executar nossos planos, cumprir nossas metas e lutar por nossos sonhos.
Contudo, ainda assim, isso não nos blinda dos imprevistos, não nos protege dos reveses, das surpresas que pipocam no caminho.
Às vezes, esses imprevistos e surpresas são obstáculos no caminho de nosso alvo.
Podem causar atrasos, adiamentos ou ser, também, desvios para outras sendas.
Simplesmente faz parte. A vida não é uma linha reta do ponto A para o ponto B. É uma teia de eventos interdependentes que se retroalimentam por vezes à revelia de nossa vontade e capacidade de previsão e controle.
Portanto, se nem tudo está saindo como você gostaria, como você previu, relaxe e tente perceber o que a vida está te ensinando e te oferecendo.
Não há acaso. Você não está passando por isso sem um motivo.
A dificuldade, o atraso ou o desvio de teus projetos e sonhos representam apenas um realinhamento e reconciliação entre o teu tempo e o tempo divino.

Confia, ajusta o que for necessário e segue firme.

domingo, janeiro 03, 2016

ESPIRITUALIDADE E PROMESSAS DE COMEÇO DE ANO


                                      “Minha religião é a bondade.”
                                      (Dalai Lama)



A passagem entre anos cria um clima psicoemocional propício para planejarmos mudanças positivas na vida. É a época dos planos, de sonhar e assumir compromissos sobre mudanças necessárias.
Dentre as metas a atingir, geralmente, põe-se trabalhar a espiritualidade. Aqui a palavra espiritualidade tem um significado diferente do comumente utilizado no Espiritismo, que se reporta aos Espíritos. A espiritualidade de que trato é no sentido lato. Ou seja, tudo aquilo que diz respeito às sutilezas do espírito humano. A palavra não se confunde com religião, que se refere a crenças organizadas em forma de doutrina, geralmente balizadas por dogmas e comandadas por hierarquias sacerdotais.
Espiritualidade são as brisas que aliviam e elevam o espírito humano em face da aridez dos desafios da vida terrestre. Pode revelar-se na música que toca profundo, no declamar de um poema, no contemplar do mar, no abraço fraterno ou em práticas como oração, meditação e yoga. O que todas essas opções têm em comum? Elas desenvolvem aspectos sutis dos recônditos do espírito humano e, por isso, são manifestações de espiritualidade.
Portanto, a espiritualidade pode ser uma experiência diária, seja ela rápida e efêmera, como um abraço acolhedor ou uma prática disciplinada como a meditação e a yoga. Cada uma delas tem seus benefícios. Sem prejuízo de você continuar suas práticas – como a oração, por exemplo - sugiro quatro opções diferentes: caminhar, praticar yoga, meditar e fazer caridade.
Ultimamente, caminhar foi associado a atividades físicas. Isso é bom, mas não é tudo. Caminhar em circunstâncias certas e com o estado de espírito adequado pode ser muito mais do que uma atividade física, pode ser uma atividade espiritual. Não custa lembrar que a caminhada há tempos foi um ritual de purificação e tem um papel central na prática espiritual de peregrinos de todo mundo. Sugiro o livro Caminhar: uma filosofia de vida, de Frédéric Gros, para quem quiser se aprofundar no assunto.
Praticar yoga também é um belo exercício de espiritualidade. A yoga é uma prática milenar, que trabalha de uma só vez o corpo e nosso eu mais profundo. A palavra Yoga tem origem na raiz sânscrita yuj e significa comunhão, integração. Propõe-se a desenvolver a  unificação harmônica de si mesmo. Essa prática – que têm muitas escolas – está associada a melhoras na saúde, na qualidade de vida, na ressignificação de valores e na própria percepção do mundo. Para quem quiser entender melhor, sugiro que estude o código de ética de Patandjáli e o livro Autoperfeição com Hatha Yoga, do saudoso Professor Hermógenes, um excelente livro para começar.
Meditar, por sua vez, traz tantos benefícios que fica difícil enumerá-los. Trata-se de prática que pode ser realizada sem vinculação a qualquer religião, embora tenha sido desenvolvida com maestria pelo Budismo. Promove a paz interior, a mansuetude, o altruísmo, o senso de comunidade, a felicidade e estados alterados de consciência que são tão fortes que mudam até a configuração e funcionamento do cérebro, conforme já provaram várias pesquisas científicas. Sugiro, fortemente, o livro A revolução do altruísmo, do monge Matthieu Ricard, considerado por vários pesquisadores como o homem mais feliz do mundo. Foi o melhor livro que li em 2015. É um livro poderoso, que desconstrói vários mitos e com farta argumentação científica e filosófica comprova os benefícios da meditação e do altruísmo.
Por fim, se você realmente quer trabalhar sua espiritualidade sugiro que você faça o bem. É neste sentido a fala do Dalai Lama, que sua religião é o bem. Ou como se diz no Espiritismo: promova a caridade. Trata-se da forma mais elevada de espiritualidade. Embora todas as demais sejam importantes, é imprescindível que a espiritualidade não seja um tesouro guardado só para si. É na comunhão, na partilha que evoluímos como seres humanos e como Espíritos imortais. Um guia para essa prática você encontra no Evangelho Segundo o Espiritismo, de Alan Kardec.
É isso. Que você tenha disposição, perseverança e compromisso com o desenvolvimento de sua espiritualidade. Bom pra você, para o ano que começa e para o mundo.