domingo, janeiro 03, 2016

ESPIRITUALIDADE E PROMESSAS DE COMEÇO DE ANO


                                      “Minha religião é a bondade.”
                                      (Dalai Lama)



A passagem entre anos cria um clima psicoemocional propício para planejarmos mudanças positivas na vida. É a época dos planos, de sonhar e assumir compromissos sobre mudanças necessárias.
Dentre as metas a atingir, geralmente, põe-se trabalhar a espiritualidade. Aqui a palavra espiritualidade tem um significado diferente do comumente utilizado no Espiritismo, que se reporta aos Espíritos. A espiritualidade de que trato é no sentido lato. Ou seja, tudo aquilo que diz respeito às sutilezas do espírito humano. A palavra não se confunde com religião, que se refere a crenças organizadas em forma de doutrina, geralmente balizadas por dogmas e comandadas por hierarquias sacerdotais.
Espiritualidade são as brisas que aliviam e elevam o espírito humano em face da aridez dos desafios da vida terrestre. Pode revelar-se na música que toca profundo, no declamar de um poema, no contemplar do mar, no abraço fraterno ou em práticas como oração, meditação e yoga. O que todas essas opções têm em comum? Elas desenvolvem aspectos sutis dos recônditos do espírito humano e, por isso, são manifestações de espiritualidade.
Portanto, a espiritualidade pode ser uma experiência diária, seja ela rápida e efêmera, como um abraço acolhedor ou uma prática disciplinada como a meditação e a yoga. Cada uma delas tem seus benefícios. Sem prejuízo de você continuar suas práticas – como a oração, por exemplo - sugiro quatro opções diferentes: caminhar, praticar yoga, meditar e fazer caridade.
Ultimamente, caminhar foi associado a atividades físicas. Isso é bom, mas não é tudo. Caminhar em circunstâncias certas e com o estado de espírito adequado pode ser muito mais do que uma atividade física, pode ser uma atividade espiritual. Não custa lembrar que a caminhada há tempos foi um ritual de purificação e tem um papel central na prática espiritual de peregrinos de todo mundo. Sugiro o livro Caminhar: uma filosofia de vida, de Frédéric Gros, para quem quiser se aprofundar no assunto.
Praticar yoga também é um belo exercício de espiritualidade. A yoga é uma prática milenar, que trabalha de uma só vez o corpo e nosso eu mais profundo. A palavra Yoga tem origem na raiz sânscrita yuj e significa comunhão, integração. Propõe-se a desenvolver a  unificação harmônica de si mesmo. Essa prática – que têm muitas escolas – está associada a melhoras na saúde, na qualidade de vida, na ressignificação de valores e na própria percepção do mundo. Para quem quiser entender melhor, sugiro que estude o código de ética de Patandjáli e o livro Autoperfeição com Hatha Yoga, do saudoso Professor Hermógenes, um excelente livro para começar.
Meditar, por sua vez, traz tantos benefícios que fica difícil enumerá-los. Trata-se de prática que pode ser realizada sem vinculação a qualquer religião, embora tenha sido desenvolvida com maestria pelo Budismo. Promove a paz interior, a mansuetude, o altruísmo, o senso de comunidade, a felicidade e estados alterados de consciência que são tão fortes que mudam até a configuração e funcionamento do cérebro, conforme já provaram várias pesquisas científicas. Sugiro, fortemente, o livro A revolução do altruísmo, do monge Matthieu Ricard, considerado por vários pesquisadores como o homem mais feliz do mundo. Foi o melhor livro que li em 2015. É um livro poderoso, que desconstrói vários mitos e com farta argumentação científica e filosófica comprova os benefícios da meditação e do altruísmo.
Por fim, se você realmente quer trabalhar sua espiritualidade sugiro que você faça o bem. É neste sentido a fala do Dalai Lama, que sua religião é o bem. Ou como se diz no Espiritismo: promova a caridade. Trata-se da forma mais elevada de espiritualidade. Embora todas as demais sejam importantes, é imprescindível que a espiritualidade não seja um tesouro guardado só para si. É na comunhão, na partilha que evoluímos como seres humanos e como Espíritos imortais. Um guia para essa prática você encontra no Evangelho Segundo o Espiritismo, de Alan Kardec.
É isso. Que você tenha disposição, perseverança e compromisso com o desenvolvimento de sua espiritualidade. Bom pra você, para o ano que começa e para o mundo.


domingo, novembro 09, 2014

A OMISSÃO DOS ESPÍRITAS - PARTE I




“Temei conservar-vos  indiferentes, quando puderdes ser úteis.”
(O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XIII, item 17)



Penso que uma das maiores demonstrações de amor é ofertar uma crítica sadia, construtiva, com intenção de propor uma reflexão sobre o aperfeiçoamento de determinada atitude.
Essa é a minha intenção com este artigo: propor uma reflexão e estimular uma mudança de postura do movimento espírita.
Como se sabe, as eleições de 2014 entram para história do Brasil não apenas como as mais acirradas, mas, sobretudo, serão lembradas pela virulenta hostilidade, pela indigência ética, pelo debate superficial de temas de relevância nacional e pela explosão do preconceito e do fundamentalismo.
Este cenário deveria ter mobilizado a atenção e manifestação do movimento espírita.
Contudo, salvo pontuais exceções, o movimento espírita silenciou, optou pela omissão diante do contexto e dos fatos supracitados.
O Censo 2010 sobre as religiões seguidas pelos brasileiros realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que os espíritas já beiram os 4 milhões de brasileiros, isto sem contar os milhões de simpatizantes. Entre 2000 e 2010, os seguidores da doutrina espírita aumentaram 65%. Trata-se de aumento considerável. Comparativamente com outras crenças, os espíritas possuem as maiores proporções de pessoas com nível superior completo (31,5%) e taxa de alfabetização (98,6%), além das menores percentagens de indivíduos sem instrução (1,8%) e com ensino fundamental incompleto (15,0%).
Da pesquisa do IBGE, nota-se, claramente, que os espíritas somam um número relevante de eleitores, têm boa instrução educacional e são potencialmente formadores de opinião.
Para além de o Espiritismo nos ensinar uma fé racional e propor a reforma íntima como centro de suas atenções, historicamente os espíritas são tidos como moderados, conciliadores e tolerantes, até porque foram por longas décadas as principais vítimas de perseguição e discriminação religiosa.
Ou seja, os espíritas e o movimento espírita reúnem uma combinação de experiências, características e virtudes que podem agregar conteúdo e propostas ao debate político.
Não obstante isso, o tema política no movimento espírita segue – em pleno terceiro milênio - como um insustentável tabu e, nesta condição, impede debates e reflexões maduras sobre o assunto, que acaba invariavelmente apequenado, reduzido a posições inflexíveis e arquivado na prateleira dos assuntos proibidos.
Desejo, neste despretensioso artigo, praticar a heresia de enfrentar este tabu, certo de que nenhum confrade vai acusar-me de má-fé, de obsediado ou condenar-me ao umbral.
Preliminarmente, anoto a sequência de minhas considerações. Quero primeiro explicar porque Kardec evitou tratar mais a miúde de política. Depois esclarecer o que devemos evitar em política. Terceiro, explicitar qual minha visão sobre a importância de um posicionamento sóbrio e maduro dos espíritas e do movimento espírita sobre política. Por fim, encerrarei este artigo rascunhando um esboço superficial, imperfeito e incompleto de alguns temas sobre os quais deveríamos nos posicionar.
Iniciemos com a posição de Kardec.
Emmanuel, através de Chico Xavier, no seu livro A Caminho da Luz, chama atenção ao fato de que Kardec reencarna em 1804, poucos anos depois da queda da Bastilha e da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão e apenas dois meses antes de Napoleão sagrar-se imperador[1].
O mundo entrava em um período de profundas renovações políticas, filosóficas e jurídicas, mas também de guerras.
Quando Kardec compilou a codificação espírita a humanidade experimentava a onda de razão do Iluminismo, que dentre outras coisas separou o Estado da religião, até então instituição central na vida política das sociedades.
Considerando os abusos que a religião promovera na condução de assuntos políticos[2], o Estado laico revelou-se uma das grandes conquistas da evolução política.
Naquele contexto, era totalmente razoável Kardec querer distância da política.
Acertadamente, sua prioridade foi focar sua pesquisa no desvelar do mundo espiritual, suas leis e organizar suas descobertas de forma a fomentar uma espiritualidade racional e que tivesse por escopo a reforma íntima.
Contudo, a conduta de Kardec não deve ser interpretada como uma posição de refutação ou desvalorização à política. A percepção mais adequada é de que ele – com sua arguta inteligência – percebeu a sensibilidade daquele momento histórico marcado pela força do Iluminismo e, sobretudo, tinha por alvo prioritário a questão espiritual.
Não obstante isso, Allan Kardec não foi omisso.
O livro Obras Póstumas, no capítulo das “Aristocracias”, consigna um estudo sobre os problemas e desafios religiosos, econômicos, sociais, culturais e políticos da humanidade.
Kardec respeitando a proposta Iluminista e aditando-a com sua visão espiritualizada, apresenta sua previsão sobre o advento da futura aristocracia intelecto-moral, no qual vislumbra um novo modelo de política, conduzida por lideranças que detenham não apenas preparo intelectual, mas também sólidas virtudes éticas e morais, que pudessem conduzir a humanidade nos complexos desafios da transição planetária.
Portanto, a distância asséptica que o Espiritismo mantém atualmente da política parece-me um equívoco, que precisa ser amplamente debatido e revisto urgentemente.
Feito este esclarecimento histórico, impõe-se passar para o segundo ponto, que é esclarecer o que devemos evitar em política.
A atuação política que defendo não é a de um projeto de poder, como defendem e fazem outras religiões.
Portanto, não defendo que os espíritas fundem um partido político, nem se filiem a um (embora possam fazê-lo no exercício de sua cidadania) e tampouco que o movimento espírita lance candidatos oficiais para os cargos eletivos para falarem em nome do Espiritismo e do movimento espírita.
Em verdade, não deve o espírita se preocupar em ocupar cargos estratégicos no Estado – embora possa fazê-lo cônscio de suas responsabilidades - ou desrespeitar a configuração constitucional do Estado laico.
Sobre estes aspectos, o livro O Consolador, de Emmanuel, recebido pela psicografia de Chico Xavier nos traz importante anotação[3]:

“O espiritista sincero deve  compreender que a iluminação de uma consciência é como se fora a iluminação de um mundo, salientando-se que a tarefa do Evangelho, junto às almas encarnadas na Terra, é a mais importante de todas, visto constituir uma realização definitiva e real. A missão da doutrina é consolar e instrui, em Jesus, para que todos mobilizem as suas possibilidades divinas no caminho da vida. Trocá-la por um lugar no banquete dos Estados é inverter o valor dos ensinos, porque todas as organizações humanas são passageiras em face da necessidade de renovação de todas as fórmulas do homem na lei do progresso universal, depreendendo-se daí que a verdadeira construção da felicidade geral só será efetiva com bases legítimas no espírito da criatura.”

Também não defendo que o movimento espírita se posicione a favor deste ou aquele candidato, grupo político e que muito menos suba em palanques. A questão não deve ser tratada sob a ótica de ideologias políticas ou de política partidária.
Não, não é isso que defendo.
O que defendo é o debate, sob a ótica espírita, de temas centrais à humanidade e o pertinente posicionamento político lato sensu do movimento espírita a respeito de tais temas.
Este é o terceiro ponto.
Consignado o respeito a quem pensa diferente, mas entendo que é inaceitável a omissão dos espíritas e, sobretudo, do movimento espírita sobre temas centrais do debate político.
É verdade que muitos espíritas, individualmente, têm louvável conduta e participam ativamente da vida política da nação, posicionando-se com respeito, racionalidade e ética.
Mas são iniciativas pessoais e não suprem o vácuo deixado pela omissão do movimento espírita.
Há, por certo, um elogiável cuidado para que se evite que pessoas usem instituições e a doutrina espírita como mote para auferir vantagens políticas e eleitorais.
Trata-se de um zelo fundado e razoável, mas que tem sido levado ao extremo, revelando-se inflexível dogma, que deve ser repensado urgentemente.
O termo política é polissêmico e aberto. Por isso, abriga várias interpretações e usos. Não obstante isso, pode-se afirmar que, de um modo geral e na sua acepção clássica, política é a arte de administrar o bem comum.
Neste sentido, não me parece razoável o movimento espírita ser omisso, sobretudo em um momento tão importante para o país e para humanidade, que enfrenta desafios globalizados e crises graves, cumulativas e convergentes, dentre as quais o crescente relativismo moral e o fundamentalismo materialista, político e religioso.
Como aceitar que um segmento tão importante da sociedade simplesmente cale, fique omisso e torne-se um indiferente espectador diante de tudo isso?
Como construir um mundo de regeneração se no curso da grande transição planetária preferimos o sofá para nos agasalharmos como ilustres espectadores de grandes debates públicos?
Primeiramente, convém lembrar a questão 766, do Livro dos Espíritos. Vejamos:

766 - A vida social está na  Natureza?
Certamente. Deus fez o homem para  viver em sociedade.

Portanto, a opção por isolar-se apenas no estudo da doutrina é um erro. Temos de sair da bolha “transcendental” e interagir com os desafios postos pela vida em sociedade.
Por outro lado, não basta que o espírita não faça o mal. É preciso agir proativamente. Ter atitude. Impõe-se participar efetivamente dos grandes desafios da humanidade. Jesus já dizia que quem com ele não somava, espalhava. Não fazer o bem, não participar das lutas por um mundo melhor, não se posicionar é ser conivente com o mal.
Kardec, no Cap. XVI, item 7, do Evangelho Segundo o Espiritismo, elucida: Com efeito, o homem tem por missão trabalhar pela melhoria do planeta.
A questão 573, do Livro dos Espíritos complementa o entendimento:

573. Em que consiste a missão dos  Espíritos encarnados?

“Em instruir os homens, em lhes  auxiliar o progresso; em lhes melhorar as instituições, por meios diretos e materiais (...)”

As questões 642 e 932 do Livro dos Espíritos reforçam minha convicção. É ler:

642. Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?

“Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”

932. Por que, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons?

“Por fraqueza destes. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão.”


Estas questões do Livro dos Espíritos estão alinhadas com a clássica afirmação do líder negro Martin Luther King: “O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas más, mas a indiferença e o silêncio das pessoas boas.






[1] EMMANUEL; XAVIER, Chico. A Caminho da Luz: Brasília: FEB, 1996, p. 188, 194.
[2] O livro A Caminho da Luz é uma ótima fonte de pesquisa a respeito deste aspecto do tema.
[3]EMMANUEL; XAVIER, Chico. O Consolador. Brasilia:FEB, 1995, p.49.

A OMISSÃO DOS ESPÍRITAS - PARTE II


PARTE II
(Continuação)

Tenho consciência que as pessoas buscam o Espiritismo para os assuntos do Espírito.
Obviamente, sei que o objetivo do Espiritismo é a reforma moral.
E assim deve ser.
A questão é que não estou propondo nada que colida com esta visão e objetivo.
A proposta aqui defendida é sazonal, limitada a curtos períodos eleitorais e sem prejuízo das atividades ordinárias das instituições espíritas.
São, portanto, atividades e atuações que não são excludentes.
O que se deve ter presente é a gravidade deste momento de crise.
A omissão do movimento espírita revela-se grave na medida em que não se posiciona publicamente – e no momento político mais adequado, que é a eleição -sobre temas da maior importância para todo planeta. Vou citar apenas alguns dados que comprovam minha afirmação.
O que o movimento espírita tem a dizer sobre a crise ambiental? É a favor de quais medidas? O que suas instituições têm feito? Ou entende que não há crise ambiental?
Em outubro o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC divulgou novos dados sobre a crise ambiental.  O relatório toma por base milhares de pesquisas científicas. Contou com 309 autores, 436 colaboradores e 66 revisores de 70 países.
Dentre as previsões do IPCC destacam-se:
- As mudanças climáticas atingem mais profundamente pessoas em vulnerabilidade social ou geográfica. Isso agravará a crise humanitária de refugiados ambientais;
- A biodiversidade está sendo afetada. Espécies terrestres e marinhas estão alterando suas atividades sazonais, abrangência, padrões de migração e interação;
- São cada vez mais recorrentes e intensos os chamados eventos climáticos extremos, como secas e enchentes e cada vez mais fazem mais vítimas e afetam também os preços e a disponibilidade dos alimentos;
- Se as emissões de gases do efeito estufa continuarem subindo – como estão apesar das promessas -, até o fim do século XXI, o número de pessoas expostas a grandes enchentes será três vezes maior;
- Para cada aumento de um grau da temperatura média global no planeta, ocorrerá uma queda de 20% na disponibilidade de recursos hídricos para 7% da população mundial;
- Maiores riscos de mortes resultantes de ondas de calor;
- O nível dos oceanos está subindo devido ao maior calor absorvido e ao derretimento de geleiras e dos polos e muitas áreas habitadas serão gravemente afetadas.
- Os oceanos estão sofrendo um processo crescente de acidificação relacionado ao aumento da concentração de CO2;
- Maior exposição a doenças transmitidas pela água e por alimentos;
- O aquecimento global colocará em risco a produtividade pesqueira e os serviços ecossistêmicos dos oceanos;

Como se vê a crise ambiental exige um esforço de todos. O que se vê é que vários setores da sociedade estão se mobilizando para ajudar a reverter os estragos da crise ambiental. O que os espíritas têm a ofertar? Essa é uma pergunta que precisa ser respondida pelo movimento espírita. Só assim, este poderá posicionar-se.
Vejamos outro problema que merece posicionamento do movimento espírita. Refere-se aos Direitos Humanos, mais precisamente à luta contra o tráfico humano e o trabalho análogo à escravidão.
Um diagnóstico preliminar sobre o tráfico de pessoas no Brasil foi elaborado pela Secretaria Nacional de Justiça do Ministério da Justiça (SNJ/MJ), em parceria com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).
O estudo revela a existência de 475 vítimas entre os anos de 2005 e 2011. Desse total, 337 sofreram exploração sexual e 135 foram submetidas a trabalho escravo.
As mulheres são o principal alvo deste abominável crime, pois garantem melhor retorno financeiro para os traficantes através da exploração da prostituição, atividade responsável por 79% das vítimas do tráfico humano. O trabalho forçado, exercido por homens, mulheres e crianças, representa 18% do total.
Não custa lembrar que todos os meses no Brasil pessoas são libertadas de trabalhos degradantes, em condições análogas à escravidão.
Estamos falando de uma atividade rentável, que envolve uma rede internacional de criminosos, que movimenta cerca de 32 bilhões de dólares por ano, privando a vida de mais de 2,5 milhões de pessoas.
Aliás, não custa lembrar que Bezerra de Menezes – um dos maiores ícones do Espiritismo - teve uma sólida e bela trajetória política, com ampla atividade pública, com atuações a favor da proteção do meio ambiente, dos socialmente vulneráveis e notabilizando-se por sua luta contra a escravidão.
Por acaso, Bezerra estava errado em envolver-se com temas políticos?
É claro que não.
Gostemos ou não, é no palco político, no espaço público, que muitos temas relevantes à sociedade e à humanidade são debatidos. Ser omisso em nada ajuda.
Como ficar indiferente ao fenômeno de avanço da pedofilia, que é tema central de cerca de mil novos sites de pedofilia que são criados todos os meses no Brasil?
Estima-se que  76% dos pedófilos do mundo estão no Brasil.
Isso mesmo, na pátria coração do Evangelho.
Estudos indicam que 52%  desses sites tratam de crimes contra crianças com idades que variam de 9 a 13 anos.
E cerca de 12% deles  expõem  até crianças de zero a três meses.
O vinde a mim as criancinhas do Cristo foi substituído pelo vinde a mim dos pedófilos. E o que estamos fazendo?
Não dá pra ficar neutro, omisso.
Afinal, como anotou Dante Alighieri:
“No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise.”
O movimento espírita precisa se posicionar, unir forças e entrar na luta, pois esta é uma das que estamos perdendo.
Sua omissão abre espaço para que propostas e condutas condenáveis se alastrem. Por outro lado, tal posição deixa milhares de pessoas órfãs e desorientadas, pois gostariam de saber qual a posição do movimento espírita sobre uma miríade de temas relevantes.
Sem uma posição clara do movimento espírita vão buscar em outras fontes orientação, nem sempre adequada, o que condena milhares de pessoas a condutas e posicionamentos colidentes com o evangelho do Cristo.
Pragmaticamente, a omissão dos espíritas e, sobretudo, do movimento espírita em temas relevantes e centrais para sociedade e humanidade pode ter péssimas consequências em relação a propostas renovadoras e consistentes, como muito bem demonstrado no artigo “A Conspiração do Silêncio”, da educadora, escritora e coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita, Dora Incontri[1].
Esses, entre outros, são aspectos que devemos refletir com serenidade e maturidade, fugindo das verdades prontas e dos radicalismos.
Criar espaço nas instituições espíritas para o debate sobre temas centrais e relevantes para sociedade e humanidade é imprescindível.
Algumas instituições espíritas – como é o caso do Grupo Espírita Abrigo da Esperança – GEAE[2] - já tomaram a dianteira no experimento de construir uma nova postura do movimento espírita. Dentre outras coisas, abriram o espaço da instituição para receber candidatos e debater temas sensíveis.
Tenho minhas dúvidas se é o caso de abrir a casa espírita para receber candidatos. A princípio, penso que não.
Ao receber candidatos, as instituições espíritas correm um grande risco de serem usadas como palanques e de gerar dúvidas sobre apoio a certos candidatos. É preciso ter cautela. Talvez, no exercício desta cautela, a Federação Espírita de Pernambuco publicou nota restritiva ao uso do espaço de casas espíritas para o debate político[3].
Será esse o melhor caminho?
Sobre receber candidatos, faço uma ressalva.
Penso que seria interessante a Federação Espírita Brasileira – FEB organizar na próxima eleição presidencial uma série de eventos para oitiva dos candidatos à Presidência da República, que poderiam ser interpelados sobre suas posições sobre temas sensíveis ao movimento espírita.
Que mal faria esse debate?
É preciso ouvi-los e eles precisam nos ouvir.
O mais importante é que as instituições espíritas estejam abertas para debater os temas centrais do momento político, sob a ótica espírita.
Após debatidos os temas centrais, cada espírita examinará livremente o candidato que entende representar melhor o que foi debatido.
Por isso, impõe-se por na ordem do dia esta discussão. Para evitar distorções e o mau uso do espaço e da doutrina, bem como para também evitar que cada instituição espírita faça ensaios, testes e experimentos a seu jeito, convém que a Federação Espírita Brasileira – FEB abra espaço para o debate deste tema e oriente movimento espírita, de forma que a participação na vida política do país ocorra de forma organizada, crítica, cuidadosa e uniforme.
É verdade que sempre haverá um risco residual de distorções e de mau uso das instituições espíritas. Mas viver é correr riscos. E não há maior risco que a omissão, que o silêncio diante do avanço de projetos e teorias sombrias. A história é farta em condenações de posturas omissas de religiões e líderes religiosos em relação a assuntos graves como violação de direitos humanos, genocídios, etc.
Vamos flertar com este erro histórico?
Por fim, o último ponto que trago é um esboço, incompleto e apenas exemplificativo, sobre quais temas deveríamos nos posicionar.
Proponho que nas eleições, sobretudo, nas de âmbito nacional, que elegem o Presidente da República, os Governadores, os senadores e os deputados federais, o movimento espírita divulgue uma Carta de Proposições do Movimento Espírita.
Outros setores da sociedade já fazem isso com muito sucesso, colaborando para o amadurecimento e debate político.
Paralelamente a isso, que se programem palestras sobre conduta ética recomendada aos espíritas durante as eleições.
No tocante à Carta de Proposições do Movimento Espírita, o campo temático é vasto. Para fins de início de debates, seguem alguns temas sobre os quais o movimento espírita deveria se pronunciar. Vejamos:

1. Defender como prioridade a ética na política, com ênfase no diálogo respeitoso e plural, na revitalização moral das campanhas eleitorais  e no combate à corrupção;
2. Defesa do Estado Laico, com a separação do Estado e da religião, mas com respeito a todos as crenças religiosas e àqueles que não têm uma religião;
3.  Defesa da tolerância religiosa e cultural e combate a qualquer forma de fundamentalismo, perseguição, preconceito e discriminação;
4.  Defesa e respeito aos Direitos Humanos, com ênfase na proteção e respeito das minorias, no combate a qualquer forma de preconceito e discriminação. Repúdio à tortura, às penas degradantes e à pena de morte. Repúdio à violência contra crianças, mulheres e idosos e apoio ao combate ao tráfico humano e ao trabalho degradante e análogo à escravidão;
5. Reforçar o pacto pela vida, com ênfase na posição contra a eutanásia, na ampliação de políticas públicas de prevenção ao suicídio, combate às drogas e contra o aborto, neste caso, defendendo políticas públicas preventivas e de acolhimento fraterno, assistencial e psicológico às mulheres;
6.  Defesa do meio ambiente e do interesse das futuras gerações, com ênfase no fortalecimento do mercado ético, na ampliação da matriz energética limpa e renovável, na economia sustentável e na ampliação de políticas públicas preventivas para desastres ambientais;
7. Priorização e ampla reforma da educação no país, com destaque para a formação integral do ser humano e com espaço para o ensino religioso de caráter plural e multidisciplinar;
8. Apoio às políticas de inclusão e proteção social, com ênfase no fortalecimento de mecanismos que impeçam a dependência e o uso eleitoreiro de tais benefícios;
9.  Combate à criminalidade com políticas públicas de caráter preventivo, sobretudo com criação de oportunidades e vias de inclusão social e de resocialização;
10.        Atuação geopolítica fundada no amplo diálogo, na diversidade, no respeito ao meio ambiente, aos direitos humanos e na cultura da paz.

Naturalmente, tais propostas são apenas sugestões incompletas e imperfeitas. Impõe-se melhora-las e acrescentar outras.
Não tenho a pretensão de falar pelo movimento espírita e tampouco de pautar suas posições e prioridades. Longe disso. Este artigo, como disse no início, é uma crítica saudável e com a melhor das intenções. No fundo é uma declaração de amor. E quando se ama, quer-se sempre o melhor.
Ele visa propor um amplo debate sobre um tema que ainda é um tabu, bem como estimular uma mudança de postura do movimento espírita.
E se isso acontecer, já terá valido a pena.





[2] Disponível em: http://www.geae.org.br/carta-aberta-eleicoes-2014/ Acesso em 09.11.2014.

quarta-feira, agosto 13, 2014

OLHOS CHEIOS DE VIDA





Hoje, quando Eduardo Campos acordou, provavelmente sentiu falta de sua esposa que estivera consigo até a noite anterior no Rio de Janeiro. Deve ter sentido falta de seu bom dia e do cheiro de bebê de seu último filho, Miguel, de 7 meses, que tinha enriquecido sua vida. Quem sabe tenha ligado pra mãe para dizer que adorou o presente do dia dos pais e confessado que ficou muito emocionado com a linda homenagem que seus filhos lhe fizeram no último domingo (vídeo abaixo).
Talvez tenha ligado para Recife querendo saber se sua esposa havia chegado bem da viagem. Só depois, mais tranquilo, tenha tomado um bom café da manhã (quiçá resistindo ao pudim que desejara para preservar sua saúde). Depois deve ter avaliado a repercussão na mídia de sua entrevista, confirmado a opressiva agenda de compromissos e desejado bom voo ao comandante.
Um dia normal, ordinário (se é que existem dias ordinários).
Contudo, há coisas que simplesmente não estão na agenda, fogem de nosso controle. A morte é assim. Raramente dá aviso prévio, jamais pede licença e sempre chega, cedo ou tarde, na áspera tristeza da solidão ou na euforia caliente da paixão, no hospital ou na festa de bodas, às 11:13 de uma manhã ensolarada ou às 23:59 de uma noite soturna, no anonimato ou sob holofotes das celebridades.
Quando chega o dia, não importa quem estava lhe esperando, nem quantas pessoas dependem de você, quantos e-mails você não respondeu, quantas mensagens do WhatsApp não leu, se não pagou a conta de luz, se esqueceu de avisar sobre os documentos, sobre os remédios ou sobre a herança ou se não deu tempo de acabar o clareamento dental, de se despedir, pedir perdão ou dizer eu te amo.
Simplesmente acontece, como um improvável raio no meio de uma tímida chuva, como uma brisa fria e suave em um dia calorento ou como uma surpreendente flor que nasce no asfalto.
Não obstante isso, temos dificuldades de lidar com o assunto, com nossa própria finitude corporal. 
Somos seres imortais, dotados de um Espírito eterno, mas solenemente ignoramos isso.
Ficamos chocados com a morte porque não levamos a sério a espiritualidade. 
Por isso é comum ouvirmos de pessoas que passaram por situações extremas, de claro risco de vida, que no pior momento pensaram: não acredito que isto está acontecendo comigo!
É como se a morte fosse encarada como uma esquisitice fantasiosa que não cabe em nossa realidade. 
Mas a morte é um fenômeno natural, uma travessia. Gostemos ou não todos temos encontro marcado com a dita cuja.
A morte de uma figura pública, carismática, transbordando de sonhos e com belos olhos cheios de vida, causa comoção e reações não só diversas, mas também extremas.
Há quem chore como se fosse por um amigo, há quem desista de viajar de avião, há quem queira ver os corpos, a cobertura do velório, o depoimento de amigos, há quem queira turbinar audiência, fazer piadas, elucubrar divagações filosóficas ou simplesmente entregar-se ao medo e a paralisia do choque.
Diante de uma comoção, todos ficamos conectados, irmanados na essência de nossa humanidade, ligados por um fio tênue que nos iguala como portadores de uma vida valiosa que as vezes desperdiçamos com pesos inúteis, com sentimentos mesquinhos e sem qualquer bússola ética e alicerce espiritual. 
Na entrevista de ontem no Jornal Nacional Eduardo Campos estava falando como candidato ao cargo máximo do país. Pronunciou-se de acordo com a ocasião e contexto.
Fiquei pensando se ontem, no minuto derradeiro da entrevista, ele soubesse de seu destino hoje, se tivesse de mandar uma mensagem final sobre sua vida, o que ele teria dito?
E se fôssemos nós, que mensagem mandaríamos?
Será que falaríamos de coisas materiais, de poder, de futilidades ou falaríamos das coisas que realmente importam na vida? Será que usaríamos o tempo final para atacarmos inimigos, reclamarmos da sorte ou nos dirigiríamos com ardor a quem mais amamos? 
Essa é uma pergunta que cabe a todos nós, pois ninguém sabe quando virá a última oportunidade.
Perdemos tempo demais com o que menos interessa e quando menos se espera o tempo acaba.
Afinal, mesmo corações cheios de sonhos param de bater, mesmo olhos cheios de vida um dia se fecham, pois raios, brisas e flores improváveis também fazem parte do jardim da vida.
Que sabíamos regar nosso jardim.
Que Deus abençoe Eduardo Campos e sua família.

domingo, março 09, 2014

LIMITES DA LIBERDADE RELIGIOSA

“A tolerância é a caridade da  inteligência”
                                                                       (Jules Lemaitre)
                                  

Fui voluntário do Centro de Valorização da Vida – CVV, que trabalha com prevenção ao suicídio.
Um dos atendimentos mais marcantes que fiz foi de uma jovem (talvez pré-adolescente). Ela ligou porque estava arrasada, profundamente triste e desorientada. Informou-me que há alguns dias tinha recebido a notícia de que o demônio falava através dela. Que estava sempre com ela e, por isso, precisava se tratar. O pastor que lhe atendia era duro e rezava entusiasmada para afastar o “encosto”.
A jovem não tinha sequer vestígios de entusiasmo.
Tinha medo.
Não só.
Em verdade, estava péssima. Sentia-se culpada e confusa. Não entendia porque ela era porta-voz de uma figura tão nefasta. Queria entender porque tinha atraído o mal e este passara a fazer parte de sua vida.
Havia dias que não dormia, porque tinha medo, tristeza, sentia-se sozinha.
A mãe e o pastor rezavam, às vezes no seu quarto, e ela sentia medo de quem poderia estar ali presente, no âmbito do invisível. Era perturbador cogitar que depois ficaria sozinha, reclamava.
Sempre amou a Deus, mas se sentia injustiçada, miseravelmente abandonada às garras de forças que não conhecia e pelas quais não tinha qualquer tipo de afeição.
Como voluntário do CVV ouvi-a com atenção, usando de técnicas específicas, da teoria de atendimento chamada de centrada na pessoa, do brilhante e saudoso psicólogo Carl Rogers.
Na condição de voluntário da ONG e por dever de lealdade a seus princípios (dentre os quais de não seguir determinada religião) não podia falar sobre religião.  
Foi um atendimento difícil e de certa forma frustrante – porque não podia trabalhar aspectos da espiritualidade -, embora a jovem tenha desligado serena e mais equilibrada.
Não sei o que aconteceu nos meses e anos que se seguiram.
Ela nunca mais ligou no meu plantão e pouco tempo depois tive de sair do CVV por conta da assunção de compromissos profissionais.
Do ponto de vista espiritual, o caso apenas demonstra ignorância sobre o fenômeno mediúnico. Poderia ser abordado de outra forma, sem instigar medo, tristeza ou culpa na jovem. De qualquer forma, é a crença abraçada por ela. E é nosso dever respeitar.
Analisando jurídica e genericamente a questão, a postura do pastor está dentro do direito constitucional da liberdade de manifestação religiosa. A jovem – enquanto fiel – estava recebendo a orientação espiritual da religião que decidiu seguir (isto considerando que estava manifestando o desejo de assim fazê-lo, o que não ficou claro para mim).
Ou seja, se a pessoa resolve seguir determinada religião, em tese, concorda ou aceita submeter-se a seus ritos, crenças e manifestações de fé. Se não concorda, tem o direito de afastar-se.
Pois bem.
Situação bem diferente ocorre quando as manifestações de fé de determinada religião revelam-se agressivas e repletas de preconceitos e discriminações contra outras denominações religiosas e a seus fiéis.
A questão envolve pontos obscuros e polêmicos, que ganharam luzes em importante e recente atuação do Ministério Público Federal – MPF, após pedido de providências de entidade associativa ligada a religiões afrodescendentes.
Em fevereiro de 2014, o MPF expediu uma recomendação para que o Google retire do seu canal de vídeos Youtube vários vídeos que ostentam ofensas a tradições religiosas afrodescendentes. Dentre eles, o MPF lista:
·         Entrevista com encosto – demônio na criança sexta-feira forte ex macumbeira;
·         Ex-pai de santo se converte e aprende a sacrificar para o deus vivo;
·         Jovem ex-pai de santo manifesta um demônio na hora da Reconciliação;
Basicamente são vídeos de denominações evangélicas que associam crenças dessas tradições a ligações “com o demônio”. As principais vítimas são os fiéis do Candomblé e Macumba. Mas é comum que manifestações deste tipo ataque também o Espiritismo.
Juridicamente o foco do debate é o confronto de alguns princípios e garantias constitucionais fundamentais, tais como: a liberdade de expressão, a proibição de preconceito, discriminação e o respeito às manifestações religiosas.
A questão envolve algumas reflexões. Até que ponto um representante de uma religião tem o direito de atacar de forma hostil e contundente outra religião e seus crentes? Ele estaria protegido pela garantia constitucional da livre manifestação do pensamento e pela proibição do Estado intervir na organização e conteúdo das religiões?
Primeiramente é importante anotar que guardo respeito pelos evangélicos. A maioria das denominações evangélicas praticam suas crenças de forma digna e tem um caudaloso rol de serviços prestados à sociedade, sobretudo em favor de pessoas que foram dadas como “perdidas”.
Portanto, a minha posição não é de generalizar a crítica e de abominar nossos irmãos reformistas.
A questão é outra. E é imprescindível ajustar o foco para não desbordar para discussões estéreis. O exame passa por aferirmos até que ponto certas condutas tem proteção legal e constitucional e quando passam a categoria de ilícitos, por eventuais abusos.
Penso que o Ministério Público Federal foi muito feliz em sua recomendação.
Primeiro porque não há direito absoluto, mesmo aqueles que são considerados fundamentais por nossa Constituição.
Não se pode, portanto, sob o argumento de exercício de um direito fundamental violar de forma dura e sistemática outros direitos e garantias também fundamentais, como – no caso – o de respeito e tolerância por outras manifestações religiosas, o de proteção a toda forma de preconceito e discriminação.
O que se vê nesses vídeos é um ataque desrespeitoso a outras crenças e a seus fiéis, que são amplamente desqualificados como seres humanos, pois supostamente portadores de vínculos nefastos com o mal, com o que há de pior e mais repugnante.
A gravidade ganha robustez na medida em que estes vídeos servem como propaganda religiosa, como forma de espalhar o medo e atrair mais fiéis.
Em verdade, as falas desses vídeos podem tipificar facilmente violações a direitos humanos, inclusive a tratados internacionais em que o Brasil é signatário.
Portanto, dúvida não resta de que este tipo de manifestação da liberdade de expressão encontra limitação constitucional e, portanto, deve ser rechaçada, pois desrespeita ampla e gravemente outras crenças religiosas.
Sob qualquer ângulo que se analise estes vídeos são violadores da liberdade de manifestação religiosa, pois são opressivos, incitam a desigualdade, o preconceito e a discriminação, o que é peremptoriamente proibido por nossa Constituição Federal, pelo Estatuto da Igualdade Racial e por tratados internacionais assinados pelo Brasil.
Na recomendação, o MPF fundamenta seu pedido no art. 3º e 5º, inciso XLI, da Constituição Federal. O primeiro que estabelece como objetivo fundamental da República Federativa do Brasil a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação. O segundo dispositivo constitucional ordena a punição de qualquer forma de discriminação atentatória dos direitos e garantias fundamentais.
Fundamenta sua recomendação também no Estatuto da Igualdade Racial (Lei n. 12.288/2010) que no seu artigo 23 dispõe que é “inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos.” Usa o art. 26 que visa coibir a utilização de meios de comunicação social para difusão de ódio ou ao desprezo por motivos fundados na religiosidade de matrizes africanas.
Por fim, remete ao art. 140, §3º, do Código Penal, que trata do crime de injúria, quando a mesma consiste na utilização de elementos referentes à religião.
No Espiritismo aprendemos que devemos respeitar todas as crenças. Que mesmo no confronto de idéias, o debate deve ser lhano, garbo, urbano, sem se deixar tentar pelo ataque e desrespeito.
Não se pode falar em desenvolvimento sadio da espiritualidade humana quando nossas práticas e falas machucam, humilham, desrespeitam e incitam à discriminação e ao preconceito.
É tempo de desenvolvermos a tolerância pela diversidade e refletirmos com a seguinte questão: será que somos tolerantes com a intolerância?
Ah, infelizmente até esta data (09.03.2014), os vídeos ainda estão disponíveis no Youtube.